Psiquiatra e professor Rogério da Silva analisa a pressão social pelo desempenho, os riscos da automedicação defende o reconhecimento dos limites humanos.
Abusca pelo bem-estar emocional tornou-se uma pauta constante. A forma como a sociedade consome e enxerga a saúde mental acende um sinal de alerta entre especialistas. Em entrevista concedida na Rádio O Imparcial, o médico e docente do curso de Medicina da Faculdade IDEA, Dr. Rogério da Silva, destacou que o tema, embora em evidência, costuma ser abordado de maneira mecânica e mercantilizada. Segundo o especialista, há uma falsa expectativa de que o sofrimento psíquico possa ser resolvido de forma imediata por meio de intervenções médicas ou farmacológicas.
Formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Rogério teve seu primeiro contato aprofundado com a psiquiatria durante um período de estudos na Polônia. Mais tarde, consolidou sua vivência acadêmica e prática ao atuar na Medicina de Família e Comunidade no Rio de Janeiro, onde ingressou no campo da psicanálise.
De volta ao Maranhão, o médico integra a equipe de residentes do Hospital Nina Rodrigues e atua na docência universitária. Ao conceituar o que é ter saúde mental, o médico recorre à perspectiva psicanalítica para afastar ideais irrealistas de plenitude.
Conforme explica o professor, a verdadeira saúde mental não consiste na ausência de problemas, mas na capacidade de construir sentidos e encontrar satisfação diante das contradições inerentes à vida.
“Eu vejo a saúde mental muito como a busca pela felicidade possível: você ser feliz dentro das dificuldades que você tem, dentro da precariedade que é ser humano. Ser humano é precário, a gente lida com a frustração por não conseguir aquilo que quer e com sonhos distantes da realidade. Lidar com essa precariedade nos promove crescimento, mas a custa de algum sofrimento”, afirmou o psiquiatra.
Exaustão imposta pelas exigências modernas
Um dos pontos centrais abordados na conversa foi a rotina de exaustão imposta pelas exigências modernas, que levam as pessoas ao esgotamento físico e emocional. O avanço das redes sociais e o ritmo acelerado de trabalho criam um cenário propenso ao surgimento da síndrome de burnout. Para o especialista, a grande dificuldade da população reside em aceitar os próprios limites antes que o corpo e a mente entrem em colapso.
“Uma grande questão que a gente enfrenta hoje em dia é o limite. As pessoas estão sendo empurradas para o seu limite de lidar com redes sociais, demandas de formação, trabalho e família. Quando a pessoa percebe que chegou no limite, é porque ela passou dele há muito tempo. A saúde mental não deve ensinar a achar que existem medicações para todos os tipos de sofrimento, mas sim desenvolver a capacidade de ter satisfação dentro do que é possível na sua realidade”, ponderou Dr. Rogério.
A busca por alívio rápido tem impulsionado a automedicação e o uso inadequado de substâncias psicotrópicas. O médico fez um alerta específico sobre a crescente procura por psicoestimulantes entre pessoas que não possuem diagnóstico de Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou transtornos alimentares, mas utilizam os remédios para alavancar o desempenho acadêmico, profissional ou para emagrecimento sem acompanhamento adequado. Essa prática, segundo o docente, pode desencadear quadros psiquiátricos ainda mais severos e complexos.
Mesmo diante da resistência ou da dificuldade que muitos indivíduos encontram para expressar o que sentem, a avaliação psiquiátrica vai além das palavras faladas. O especialista esclarece que o olhar profissional contempla a linguagem não verbal, o tom de voz, as pausas e o histórico familiar do paciente. Traços como o alto nível de exigência pessoal e a hesitação em pedir ajuda são frequentemente mapeados durante a consulta, permitindo que a intervenção médica ocorra mesmo quando o paciente não consegue verbalizar com clareza o seu sofrimento.
Ao projetar os cenários futuros, nos quais transformações tecnológicas e incertezas no mercado de trabalho aumentam a apreensão coletiva, o médico enfatizou que o fortalecimento da saúde psíquica depende da reconstrução de laços comunitários e do apoio mútuo.
“A gente só enfrenta a nossa precariedade através da vida em comunidade. O melhor modo de você ser independente é contando com muitas pessoas. Se eu pudesse deixar alguma reflexão, seria: busquem ajuda profissional, façam psicoterapia, exercícios físicos e atividades que deem sentido à vida. Dentro desse processo, aceitem os seus limites e aceitem a ajuda do outro”, conclui.
O Imparcial

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